Clichê literário ou roubo de manuscrito? O caso de plágio contra Tracy Wolff
- Mundos em Letras

- 8 de jun.
- 5 min de leitura
Se você acompanha o fenômeno da romantasia (a mistura de romance com fantasia que explodiu no BookTok), com certeza já ouviu falar ou leu Desejo (Crave), da autora Tracy Wolff. O livro, que reconectou o público com a febre dos vampiros e gárgulas em uma estética que lembra Crepúsculo, é um sucesso absoluto de vendas mundial.
O que muita gente não sabe é que os bastidores dessa história estão envolvidos em um processo judicial de direitos autorais que custou centenas de milhares de dólares e colocou a comunidade literária em alerta.
Desejo: Livro I da Série Crave - Tracy Wolff
Sinopse: Meu mundo mudou por completo quando entrei na Academia Katmere. Este lugar e os alunos que estudam aqui são muito estranhos. Aqui estou eu, uma simples mortal entre deuses... ou monstros. Ainda não consigo decidir a qual dessas facções em guerra eu pertenço, ou mesmo se pertenço a alguma delas. Tudo que sei é que a única coisa que os une é o ódio que sentem por mim. E há também Jaxon. Um vampiro com segredos mortais que não sente nada há cem anos. Mas há algo nele que me atrai, algo que se quebrou e que, de algum modo, se encaixa no que se quebrou em mim. E isso pode trazer a morte para todos nós. Há uma razão para Jaxon ter erguido muralhas ao redor de si mesmo. Agora, alguém quer acordar um monstro adormecido, e eu fico me perguntando se fui trazida aqui intencionalmente, como isca.
Tradutor: Ivar Panazzolo Junior
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Ordem de Leitura:
A autora não publicada Lynne Freeman acusa Tracy Wolff, a editora Entangled e a agência literária Prospect de terem usado o seu manuscrito não publicado, intitulado Blue Moon Rising, como base para criar a série Crave.
Entenda os detalhes dessa polêmica que parece saída de um thriller de tribunal:
O Início de Tudo: O manuscrito esquecido
A história começa em 2010. Lynne Freeman, uma advogada de direito de família, deu os toques finais em seu primeiro romance de fantasia urbana, Blue Moon Rising. A trama trazia Anna, uma adolescente que se mudava para o Alasca após uma tragédia familiar, se apaixonava por um lobisomem e descobria que tinha poderes mágicos.
Freeman assinou com a agente literária Emily Sylvan Kim. Juntas, elas trabalharam por três anos refinando o texto, mas o livro acabou sendo rejeitado por mais de uma dúzia de editoras. A justificativa? O mercado de romances paranormais estava saturado e faltavam elementos novos. Em 2014, a parceria acabou e o manuscrito de Freeman foi engavetado.
O Choque na Livraria: Coincidência ou Cópia?
Em 2021, enquanto folheava livros em uma seção jovem adulto, Lynne Freeman se deparou com Crave (Desejo), lançado por Tracy Wolff em 2020 pela editora Entangled. Ao ler a obra, Freeman entrou em choque. As semelhanças com o seu livro inédito eram perturbadoras:
A premissa: Em ambas as histórias, a heroína se muda de San Diego para o Alasca após a morte dos pais em um acidente, vai morar com os dois únicos parentes vivos (que secretamente são bruxos) e se envolve com um ser da noite (um vampiro em Crave, um lobisomem em Blue Moon).
Os detalhes: Em ambos os enredos, uma rival dopa a protagonista, há um momento romântico crucial sob a aurora boreal e, no clímax, a mocinha liberta acidentalmente um ser antigo cujo retorno promete o fim do mundo.
Elementos Pessoais: Freeman notou detalhes que alegava serem baseados estritamente na sua vida pessoal e que ela havia compartilhado com sua antiga agente, como cenas voando em um teco-teco (seu avô era piloto no Alasca) e o fato de a protagonista ser uma gárgula (Freeman é colecionadora de gárgulas).
A Conexão de Bastidores
Ao investigar mais a fundo, Freeman descobriu o elo que unia os dois mundos: Tracy Wolff é a cliente estrela da mesma agente que gerenciou o manuscrito de Freeman no passado, Emily Sylvan Kim.
Além disso, a editora que publicou Crave, a Entangled, havia recebido o manuscrito de Freeman para avaliação anos antes. Para Freeman, a agência e a editora haviam facilitado o acesso ao seu livro antigo para que ele servisse de base para o novo sucesso de Tracy Wolff.
O Outro Lado: O Processo e a Defesa de Tracy Wolff
Diante das acusações, Lynne Freeman abriu um processo por violação de direitos autorais. Do outro lado, Tracy Wolff, a editora Liz Pelletier e a agente Emily Kim negam veementemente as alegações. A defesa afirma que elas nunca leram ou ouviram falar do manuscrito de Freeman e que as acusações são "fantasiosas".
A defesa se apoia em dois argumentos principais para derrubar o processo:
1. A Indústria dos Clichês (Tropes): A defesa argumenta que o gênero da romantasia é inteiramente pavimentado em cima de clichês compartilhados por uma comunidade literária viva.
"Você não pode reivindicar a propriedade de um poço de ideias compartilhadas", defendeu Liz Pelletier, CEO da editora. Ela usou essa metáfora para explicar que o gênero de romance paranormal funciona como uma grande fonte pública de inspiração, onde qualquer escritor pode ir e tirar ideias. Segundo a editora, ninguém pode se declarar dono de clichês clássicos como "heróis de jeans preto", "cenários isolados no Alasca" ou "encontros sob a aurora boreal", já que tudo isso faz parte desse ecossistema comum há décadas.
2. A Diferença Gritante de Tom e Estilo: Quem lê os dois textos afirma que a experiência é completamente diferente. Enquanto o livro de Tracy Wolff (Crave) é comercial, divertido, ágil, cheio de piadas e cenas hot explícitas, o manuscrito original de Freeman era uma obra muito mais silenciosa, densa, focada em traumas familiares, mitologia esotérica e isolamento psicológico.
O Impacto no Mercado Literário
O caso abriu uma discussão complexa. Com o avanço do BookTok, os autores hoje escrevem de forma muito acelerada, muitas vezes guiados por de clichês (ex: enemies to lovres, protagonista moralmente cinzento, etc). Quando todo mundo passa a produzir histórias usando as mesmas fórmulas de sucesso, onde fica o limite da originalidade?
Muitos temem que, se Freeman vencer, o veredito abra um precedente perigoso onde autores de sucesso possam ser processados por qualquer pessoa que tenha escrito uma história de amor com vampiros no passado. Por outro lado, para autores independentes, o caso expõe a vulnerabilidade de ver suas ideias circulando por grandes agências sem nenhuma proteção.
Para pagar os custos dos advogados, Lynne Freeman chegou a vender sua casa no Alasca. Do outro lado, a defesa já gastou mais de um milhão de dólares.
E você, o que acha dessa polêmica? Acha que tantas coincidências de enredo apontam para uma cópia velada de bastidores ou acredita que no mundo dos clichês literários é perfeitamente normal que duas pessoas tenham ideias tão parecidas? Deixe sua opinião aqui nos comentários!




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